Química

Mais um dia de trabalho começa. De pé na frente da varanda da minha casa espero o estagiário chegar de carro para me dar carona. Tenho meu próprio carro, mas já que a empresa quer se mostrar preocupada com o meio ambiente, instituiu um programa de caronas entre os funcionários. E hoje era o dia do estagiário buscar a mim e ao diretor do departamento.

— Departamento… — pensei comigo mesmo. Na verdade é apenas uma sala com espaço suficiente para nós três, alguns computadores e um pequeno laboratório de química. Para as devidas apresentações, sou o responsável pela análise e criação de novos compostos para a purificação da água da cidade. Cloro por cloro pode ser suficiente, mas sempre é possível melhorar.

— Diabos, ele não sabe que está frio na rua? — agora falei, e caso houvesse alguém caminhando pela calçada, teria ouvido, olhado incredulamente para mim e continuado a caminhar. Estagiários, todos já foram, e quando não o são mais, descontam na próxima geração.

Então o carro de Martin parou em frente à minha casa. Atravessei o ar frio daquela manhã me encolhendo dentro do casaco e olhando diretamente para a maçaneta da porta. Entrei no carro e ouvi o primeiro cumprimento do dia.

— E aí Arquimedes?

— Não me chame de Arquimedes.

— Nossa, parece que alguém não viu mulher ontem à noite.

— Nossa, parece que alguém ainda não descobriu quem foi Arquimedes.

— Arquimedes, alquimia, química, tudo igual.

— Dirija.

Geralmente aqueles são os primeiros 30 minutos mais longos do dia. Os outros são na volta para casa. Não há linhas de ônibus até a Central de Tratamento de Água, por isso a carona com Martin é a minha única opção.

Tags: história